Tesouro no Lixo – “O Adonis de Dor”

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Foto 1 – OS ROLIÇOS LÁBIOS VERMELHOS e os grossos cachos da figura deste mosaico são semelhantes aqueles usados por senhoras elegantes, mas de fato retrata a face de um homem – uma máscara teatral masculina, para ser preciso. Escavado de uma cova romana em Tel Dor, este magistral mosaico com luxuriante guirlanda de frutas e fitas, foi destruído em tempos antigos. Os autores S. Rebecca Martin e Andrew Stewart examinaram este misterioso e encantador achado, tanto quanto uma pessoa que o tivesse adquirido.

S. Rebecca Martin e Andrew F. Stewart

Muitas pessoas que veem pela primeira vez esse assombroso mosaico descoberto em Tel Dor, pensam se tratar de uma mulher, assim como o editor da BAR Hershel  Shanks quando visitou o lugar no verão de 2008. Ele o comparou com o mosaico de Sephoris que foi apelidado de “Mona Lisa da Galiléia”, sugerindo que poderia ser chamada de “Mona Lisa de Dor”. Quando os escavadores do mosaico e os editores(1) explicaram que de fato ele representava uma máscara de teatro de um homem jovem, suspensa numa guirlanda floral, a editora contribuidora da BAR, Suzanne Singer, sugeriu uma alcunha melhor – “Adonis de Dor”.

Infelizmente este fragmento de mosaico não foi achado in situ. Na verdade ele foi jogado fora.  Devido à sua excelente qualidade, é difícil acreditar que alguém destruiu intencionalmente este mosaico. Foi ele destruído por um terremoto? Ou por algum conquistador? Provavelmente ele tenha sido removido do seu local original e eliminado na era romana, como parte de uma ampla reorganização e projeto de reconstrução de uma cidade. Pelo fato de ter sido encontrado junto com entulho de obras, não sabemos de que tipo de construção ele veio, nem sua data exata. Seu estilo sugere que ele data por volta de 100 a.C. quando Dor, uma cidade aparentemente fenícia, foi um porto helenístico movimentado na costa leste mediterrânea, cerca de 20 quilômetros ao sul da moderna cidade de Haifa e 60 quilômetros ao norte de Tel Aviv.

Dor é um exemplo bem preservado de uma das muitas cidades-estado independentes que dominaram a planície costeira e vales interiores do mediterâneo ocidental na era Helenistica. Os antigos reis Hasmoneanos, notadamente Alexandre Janaeuss (que governou de 104-78 a.C.), fez campanha para conter o poder destas cidades para poder anexar seus territórios aos do Reino Judaico. De acordo com Josephus, o tirano Zoilos governou Dor e sua cidade vizinha Straton’s Tower (mais tarde chamada de Cesareia Romana) em fins do segundo século a.C.(2) Alexander Jannaeus pode ter perdido o controle destas cidades distantes de Zoilos cerca de 100 a.C. por volta do mesmo tempo em que o mosaico foi feito – e então impiedosamente destruído.

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Foto 2 – PORTÃO PARA O OESTE. No fim do segundo século a.C., o movimentado porto phenicio de Dor (acima) foi uma cidade-estado rodeada por vastos reinos. De acordo com Josephus, o “tirano” Zoilos governava Dor e a vizinha Cesaréia (naquele período chamada Straton’s Tower) enquanto generais Romanos e Seleuticos, Ptolomeicos e reis Hasmoneanos concorriam por poder e territórios no oriente próximo. O rei Alexander Jannaeus provavelmente tomou o controle das cidades de Zoilo por volta do ano 100 a.C. e adicionou-as ao território judeu. Mas o abundante comércio com o oeste já tinha deixado marcas em Dor.

O mosaico é o exemplo mais completamente preservado do opus vermiculatum encontrado em Israel; de fato, este é um dos únicos conhecidos, sendo o outro um exemplo muito fragmentado de Tel Anafa no monte da Galiléia. Opus vermiculatum, ou “trabalho de verme”, é uma técnica que emprega peças muito pequenas de pedra, cerâmica e vidro de 3 a 5 milímetros de diâmetro – e algumas vezes menores ainda, colocadas sobre uma fina argamassa. A variedade de cores usadas é extraordinária e inclui uma ampla gama de verdes, azuis e amarelos, e ainda o branco. A maioria das tesselas, ou cubos de mosaico são pequenos quadrados, mas seu tamanho e forma variam de acordo com sua posição. Onde o fundo branco se aproxima da área decorada, as tesselas são colocadas com a técnica do vermiculatum, incluindo pequenas peças irregulares, frequentemente de até 1 milímetro, fazendo a curva, como um verme, para contornar a face, frutas e flores.

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3 – BELO “TRABALHO” SE PUDER ENTENDÊ-LO. Opus vermiculatum é um estilo de mosaico raro em Israel – o mosaico de Dor é um de apenas dois conhecidos – mas foi bem conhecido no mundo helenístico. O nome veio da palavra latina para “trabalho de verme” Enquanto outros estilos de mosaicos têm o fundo de tesselas colocadas em linhas retas, no opus vermiculatum as tesselas são colocadas seguindo a forma das figuras do mosaico, como visto em volta do chapéu no detalhe acima. Essa técnica, que é considerada uma das mais difíceis, cria um efeito que ressalta o contorno do desenho.

A representação das formas neste mosaico reflete um toque de mestre. A variedade de cores é surpreendente: marrom rosado e cinza claro para a pele; vermelho rosado para as características arredondadas, como o queixo, orelha, face e fendas nasais; uma mistura de branco com amarelo claro para as partes iluminadas. O lado direito da face é sombreada de marrom para enfatizar a curvatura da cabeça. Vários tons de vermelho são usados para os lábios entreabertos. O que foi preservado da boca aberta é o suficiente para revelar que seu lado esquerdo termina abruptamente numa linha vertical, mostrando como foi cortado o tecido da máscara. As partes do nariz que restaram são delineadas em marrom. O olhos com as pálpebras pesadas são encabeçados por grossas sobrancelhas escuras. Os olhos com grandes pupilas são compostos de pequenas tesselas especiais; o olho esquerdo consiste de quase 30 delas.

A face é emoldurada dos lados por um ondulado cabelo marrom caindo em cachos. A figura veste um chapéu vermelho e dourado que é cravejado com quatro gavinhas de frutos de hera amarelo-esverdeadas. Abaixo das gavinhas de frutos de hera encontra-se um filete em cores marrons e azuis. Um notável laço de fita azul-esverdeado amarra todos os elementos – chapéu, filete, frutas e máscara; ele também prende a máscara à guirlanda atrás dela, e salta pela parte de baixo. A fita é azul escura, azul brilhante, azul claro e com vidro verde e pedras que são quase turquesa. Essas variações de luz e sombra, chamadas de chiaroscuro dão uma ilusão impressionante de profundidade para a superfície bidimensional.

Mas quem ou o que é esta máscara? Nós conhecemos de uma antiga fonte, Julius Pollux, autor de um Dicionário Grego do segundo século a.C., ou na lista de máscaras usadas no teatro grego.  Pollux descreve as características físicas que deveriam ser representadas nas máscaras dos atores. As máscaras de mosaico de Dor combinam características de dois tipos de personagens, um “delicado” e outro “de cabelos ondulados”;  ambos são descritos como jovens delicados, pálidos pelo tempo que passavam dentro das casas em festas.

Os restos dos fragmentos mostram uma guirlanda rica na qual a máscara é suspendida. Ela inclui heras variegadas, azeitonas selvagens, romãs e rosas selvagens. Outros fragmentos florais (não mostrados) incorporam mais frutas e flores, de pinhas e lótus, criando uma rica e fecunda atmosfera. Uma parte de guirlanda particularmente grande foi encontrada com uma fita amarela enrolando-se em volta dela; talvez essa fita amarela fosse usada para prender outra máscara, agora perdida, na guirlanda.

A área do chão da máscara com a guirlanda foi emoldurada por um meandro, ou motivos usuais gregos, apresentados em perspectiva para dar ilusão de três dimensões. Vários fragmentos de meandros foram recuperados, assim como centenas de fragmentos da guirlanda e de áreas brancas do piso. Somente alguns fragmentos do centro do piso foram identificados até agora. Temos bastante material suficiente para arriscar um palpite sobre o que era mostrado: uma cena externa, como indicada pelo braço esquerdo de uma figura em escala pequena segurando um lagobolon (cajado) usado para caçar coelhos e outros animais de pequeno porte. Esta figura está de pé em uma rocha. Talvez seja Pan, o deus grego dos pastores e sua terra, o deserto.

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(fig a)

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(fig b)

4 – MAIS PEÇAS DO QUEBRA-CABEÇA. Outros fragmentos do mosaico de Dor foram descobertos durante a escavação de um entulho de obra. Várias porções como esta mais acima (fig a), mostram que o piso era contornado por um meandro grego, executado com efeito tridimensional.  Apenas poucas peças do centro do piso foram encontradas, mas foram suficientes para os escavadores identificarem como uma possível figura de Pan. (fig b). No topo do fragmento um braço rosa cuidadosamente sombreado agarra uma vara dourada e curva, enquanto parte da rocha cinza pode ser vista na parte de baixo da peça. A vara curvada é facilmente reconhecida como um lagobolon, cajado, usado por Pan, caçadores pastores e centauros. Estas pequenas pistas indicam não apenas que a cena é exterior, mas que de fato é no deserto. Este e o outro mosaico remanescente sugerem que o mosaico central do painel mostra uma animada cena Dionisíaca adequada a uma sala de jantar.

Embora o mosaico de Dor seja o único exemplar proveniente de Israel, é comum em áreas próximas a decoração de pisos de mosaico com máscara e guirlanda no início do período helenístico. Frequentemente essa decoração era emoldurada por motivos geométricos como meandros. São conhecidos exemplares provenientes de centros helenísticos próximos em que mosaicistas de Dor quase que certamente foram treinados, desde Alexandria no Egito, até a  ilha grega de Delos e a Pérgamo na Turquia ocidental. Muitas vezes as guirlandas exibiam máscaras de personagens variados incluindo homens e mulheres velhos. Um pequeno fragmento de uma segunda máscara encontrada em Dor tem sobrancelhas finas e a face está orientada para a direita. Uma vez que ambas essas características divergem do exemplar bem preservado, com suas sobrancelhas grossas e a face orientada para a esquerda, podemos especular que o mosaico de Dor provavelmente continha máscaras com diferentes personagens e correspondiam a características físicas.

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monalisa-de-dor-8 (fig d)

5 – DO ESPESSO AO DELICADO. O onomasticon de Julio Pollux, do segundo século d.C. lista todos os tipos de personagens teatrais gregos. Com base nas características do “Adonis” de Dor, a máscara corresponde ao tipo “delicado” e de “cabeleira cacheada” ambos descritos como delicados jovens que passavam muito tempo dentro das casas de festas. Embora esta máscara (fig, c) tenha sobrancelhas espessas e face ligeiramente voltada para a esquerda, outro pequeno fragmento (fig d)) mostra a fina sobrancelha de outra máscara voltada para outra direção. Isto sugere que havia originalmente ao menos duas máscaras e que a outra provavelmente representava um teatral diferente.

Postos juntos, os mosaicos de frutas e flores, máscaras e a cena central mostrando “Pan” no deserto, cria uma atmosfera festiva associada com Dionísio,a divindade do teatro, vinho e embriaguez. Em lares particulares Dionísio era honrado com uma festa de comes-e-bebes chamada de symposion. Um symposion acontecia tipicamente num andron, ou “sala masculina”, assim chamada porque abrigava grupos de homens que se reuniam para jantar, beber, falar de política, cantar e jogar.

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6 – PARALELO PRÓXIMO, CIDADE DISTANTE. Este detalhe de moldura do piso de mosaico da Casa do Fauno em Pompeia chamado “Condutor de Tigre”,  oferece um vislumbre de como o mosaico de Dor devia parecer. Apesar de não haver outros exemplares provenientes de Israel, o motivo de máscara-guirlanda era comum em molduras nas decorações do mundo helenístico. Martin e Stewart criam que o mosaico de Dor adornava o piso de uma sala similar à do andron, ou “sala dos homens” onde, no mundo grego hospedes eram recebidos para os Symposia com jantares, bebidas e outros entretenimentos animados.  

Tais reuniões eram populares e socialmente importantes em todo o Mediterrâneo onde tinham significado e formas diferentes. Assim, a despeito do seu estado fragmentado, podemos especular que o mosaico de Dor decorou o piso de uma casa particular, mais provavelmente usada para festas e bebedeiras. O rico proprietário da casa do piso de mosaico de Dor pode ter usado este espaço de uma forma social semelhante à dos gregos, de quem os elementos do desenho foram emprestados.

Estes pontos ainda que tênues, contribuem para aquilo que ja sabemos sobre a história de Dor nesse período, o período de dominação pelo tirano Zoilos. Uma vez que o rico proprietário dos mosaicos era suficientemente proeminente para atrair artistas treinados em uma grande cidade grega, e desde que ele não tinha escrúpulos para representar temas pagãos e imagens religiosas, é tentador colocar o mosaico de Dor no palácio de Zoilos, e sua brutal destruição nas mãos do seu conquistador judeu Alexander Jannaeus. No entanto, nenhum tipo de “Zoileion” (palácio de Zoilos) foi encontrado em Dor. Por enquanto apenas podemos especular e esperar que novas descobertas possam nos dar algumas respostas.

(Biblical Archaelogy Review, Nov-dez 2009, v.35 – n.6)

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